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“A comida é marca registrada da nossa cultura”

por admin | 8 de junho de 2018 | Cases

Bela Gil defende o uso de ingredientes nativos e revela que não passa num drive thru de rede de fast food há mais de 15 anos

Você provavelmente já deve ter visto algum de seus livros na livraria, assistido ao preparo de suas receitas pela televisão ou acompanhado seu dia a dia no Instagram ou em outras plataformas online. A escritora, apresentadora e chef de cozinha natural Bela Gil, que acumula mais de 1 milhão de seguidores nas redes, é um fenômeno difícil de passar despercebido. Em seus diversos projetos, como os programas Vida Mais Bela e o Bela Cozinha, sucessos de audiência no GNT, a filha de Gilberto Gil destaca a importância da alimentação saudável e consciente.

Em entrevista ao culturagerafuturo.com, a chef de 30 anos fala sobre a relação intrínseca entre culinária e cultura, a riqueza gastronômica brasileira, trajetória profissional e sobre os benefícios de se manter uma alimentação saudável.

Quando começou a se interessar pela gastronomia? Na sua família havia alguém que sempre cozinhava, que te ensinava receitas e truques?
Sempre digo que não nasci com o dom de cozinhar ou encantada pela cozinha. Minha avó cozinhava muito em casa, principalmente nas comemorações de feriados e festas de final de ano. O banquete era sempre por conta dela e todo o aprendizado que teve com a sua sogra italiana. Meu irmão mais novo e eu adorávamos ajudar a preparar o capeletti, a abrir a massa de macarrão, a fritar os bolinhos de chuva, e também comer o bolo de chocolate ainda quente. Mas eu só fui cozinhar de verdade aos 18 anos, quando fui morar em Nova York e entendi que, para eu continuar a comer bem, teria que cozinhar. Então, a minha maior inspiração para a cozinha foi a vontade de comer comida de verdade, saudável e a um preço justo, além da fome. Nada mais inspirador do que a fome.

Costuma ser a cozinheira da família quando todos vocês se juntam? O que te dá mais prazer em cozinhar?
Depois que me formei como chef de culinária natural, sempre que ia visitar meus pais eu preparava alguma novidade. Meu pai gostava muito de experimentar minhas receitas. E, hoje em dia, nas festas de final de ano, por exemplo, sempre preparo duas ou três receitas para agradar os vegetarianos e veganos da família. O prazer de cozinhar está relacionado ao fato de querer comer bem, alimentar quem você ama, poder escolher exatamente com quais ingredientes você quer trabalhar (orgânicos, da agricultura familiar, de assentamentos agroecológicos, etc). O prazer que a comida me dá não está só no paladar, mas sim em de saber todas as etapas da cadeia de produção e nos benefícios da comida no meu corpo.

Acredita que o fato de seu pai ter adotado a macrobiótica tão cedo foi fundamental para ele ter a vitalidade atual, resistindo a uma doença grave e se mantendo na estrada?
Eu não só acredito, como tenho certeza. Os próprios médicos nos disseram que o estilo de vida e alimentação saudável que meu pai sempre levou favoreceu muito a recuperação dele.

Quais cozinheiros te inspiram?
Alice Waters, Dan Barber, Neide Rigo, Alex Atala…

Entre os diversos livros que você lançou, há o “Bela Cozinha 3 – Ingredientes do Brasil”. Em que medida acredita que a culinária é um traço importante da cultura brasileira? E ela pode ser um diferencial, um bem que gera valor agregado lá fora?
Acredito que culinária e cultura estão intrinsecamente ligados. Não há como dissociar uma coisa da outra. O povo é aquilo que planta, que colhe e que come. O Brasil tem uma culinária muito rica, que conta a história do seu povo desde os conhecimentos ancestrais indígenas até os alimentos novos trazidos pelos europeus e africanos. Gosto de fazer comida que representa a nossa terra, a nossa história e a nossa transformação. Uso ingredientes nativos, com técnicas tradicionais e modernas para fazer pratos que representam a mudança na produção e consumo de alimentos pelos brasileiros. Quando viajamos, logo pensamos no tipo de comida que iremos encontrar (pelo menos comigo é assim). Adoro explorar as tradições culinárias de cada região do Brasil e no mundo. Então, acredito que a culinária ligada à nossa cultura é um grande agregador de valor para os estrangeiros. Não conheço um turista estrangeiro que não queira experimentar um acarajé em Salvador, um pão de queijo em Minas Gerais ou uma feijoada no Rio de Janeiro. A comida é marca registrada da nossa cultura. Comida é cultura.

Acredita que sua luta em divulgar produtos “não usuais” na mesa do brasileiro e uma filosofia sustentável já surtiu efeito em nossa sociedade? A cúrcuma agora é tendência!
Sinto que o meu trabalho tenha facilitado o trabalho de muitos outros brasileiros que, assim como eu, tentam diversificar e melhorar a dieta do brasileiro. Hoje, vejo a agroecologia ganhando mais espaço nos debates sócio-político-ambientais dentro e fora do governo. A produção e consumo de produtos sem veneno tem aumentado e a preocupação do povo brasileiro em relação àquilo que consome também afetou a maneira como a indústria produz e anuncia seus produtos. Os brasileiros que têm a oportunidade de escolher o que comer se preocupam cada vez mais em ingerir um alimento de melhor qualidade. Isso me dá uma esperança de que possamos um dia democratizar a alimentação saudável e dar o direito a todos os brasileiros de comer com qualidade.

Você é sucesso de audiência no GNT e tem milhões de seguidores nas redes sociais. Com os admiradores também vêm os haters e os memes. Como lida com isso?
Acredito que cada um tem o seu momento para o despertar da consciência. Nunca apontei o dedo para ninguém julgando o que é certo ou errado. Gosto de compartilhar o meu ponto de vista em relação a muitos assuntos ligados a alimentação, nutrição, sustentabilidade, politica, etc. Muitas pessoas gostam de ouvir a minha opinião e se inspiram nos meus atos e pensamentos. Outras se sentem vulneráveis e muitas vezes afrontadas por não conseguir ou não saber que conseguem melhorar certos aspectos de suas próprias vidas. E cabe somente a elas essa decisão. Os haters aparecem por causa dessa ilusão de acharem muito distante as suas vontades da sua própria realidade. O novo sempre assusta e continuará assustando. As pessoas têm medo do novo, medo de saírem da zona de conforto e medo de mudar.

Qual foi a última vez que você passou num drive thru de rede de fast food e comprou um monte de “porcarias”?
Aos 14 anos. Com 15 mudei minha alimentação e sigo com ela até hoje.

E, por fim, você acredita que a cultura gera futuro para as pessoas? Que a gastronomia gera futuro?
A cultura gera futuro paras as pessoas, para a tecnologia, para o meio ambiente, para a polícia e para a economia. Só podemos melhorar o futuro conhecendo bem o nosso passado, a nossa cultura, a nossa tradição. Precisamos entender os erros e os acertos das escolhas de uma sociedade e não ter medo de mudá-las. Com a gastronomia não é diferente. A arte do conhecimento culinário pode levar uma pessoa ou um povo a lugares que eles jamais imaginavam. Luto para preservar a cultura alimentar de cada povo e também para transformá-la de acordo com o contexto atual.

(Crédito das fotos: Daryan Dornelles)