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A saída criativa da violoncelista que quer estudar em Berklee

por admin | 18 de junho de 2018 | Notícias

Kely Pinheiro, nascida na comunidade Grota do Surucucu, em Niterói (RJ), cria crowdfunding para se especializar na maior escola de música do mundo

A violoncelista Kely Pinheiro é apaixonada por música desde pequena. Foi na comunidade em que cresceu, Grota do Surucucu, em Niterói (RJ), que, aos cinco anos, teve seu primeiro contato com instrumentos. O projeto social Orquestra de Cordas da Grota serviu como o pontapé inicial para uma carreira que a levou para apresentações fora do País e, mais recentemente, a conquistar uma bolsa de estudos para uma das mais prestigiadas universidades de música: a Berklee College of Music, nos Estados Unidos.

“Quando recebi a carta e vi que tinha ganhado a bolsa integral, fiquei super feliz, quase não acreditei. Isso sempre foi um sonho para mim”, lembra Kely. “Só a mensalidade custa quase 22 mil dólares”, completa. Mas, apesar da boa notícia, a violoncelista deparou com um entrave difícil de contornar: precisaria também de apoio financeiro para cobrir custos como os de saúde, transporte e alimentação para poder se manter por lá.

Determinada, criou um crowdfunding para arrecadar (até 9 de setembro) cerca de R$ 70 mil, quantia estimada para ela viver nos Estados Unidos por um ano. Até esta segunda-feira (18), já havia juntado R$ 45.655. A iniciativa “Kely vai para Berklee” ganhou apoio de nomes de peso da música brasileira, como o maestro João Carlos Martins e o pianista Marcelo Bratke, que a consideram “um jovem talento” e “um nome do qual o Brasil terá orgulho”.

Kely Pinheiro é hoje estudante na Unirio e violoncelista da Orquestra Laranjeiras. Com a sinfônica, já conseguiu trocar experiências com músicos estrangeiros, viajar para fora do Brasil e tocar em países como Alemanha, Noruega, Suécia e Holanda. “Foi nessa orquestra que consegui, pela primeira vez, ter meu próprio instrumento e onde conheci os professores que me influenciaram para ir para Berklee”, relata.

O curso no qual Kely pretende se graduar é bacharel em performance, com duração de três anos, que trabalha com especialização no instrumento de cordas, no caso dela, o violoncelo. “Sempre tive professores que estudaram lá e fomentavam isso em mim. Seria perfeito para continuar meu trabalho e me possibilitaria fazer trocas, levaria a música brasileira e pegaria o que eles têm a oferecer”, diz. “O curso seria um divisor de águas. Planejo tirar o máximo e repassar, pois não podemos ficar com conhecimento só pra gente.”

Além do crowdfunding, Kely promove concertos e shows para viabilizar sua ida à Berklee. O próximo, intitulado “Concerto beneficente Kely vai para Berklee”, será no dia 25 de junho, em Niterói (RJ).

Uma vaquinha como nenhuma outra

A plataforma de crowdfunding usada por Kely é o Catarse. Criado em janeiro de 2011, busca o financiamento coletivo para projetos criativos no Brasil. O manifesto de fundação diz que o site nasce de uma dor: ver gente brilhante com projetos engavetados. Desde que foi fundado, permitiu o financiamento de 7490 projetos. Além disso, 502.736 pessoas já apoiaram pelo menos um projeto no Catarse.

Geraldo Aleandro, diretor de comunidade do Catarse, explica que são comuns financiamentos para projetos culturais e que a plataforma, democrática, é uma ferramenta complementar e poderosa. “No primeiro semestre, 60% foram para projetos criativos”, afirma. “Já vimos casos de músicos que complementaram bolsas graças à plataforma e teve o pessoal de outras áreas também, que foram para França, Harvard. Mas nunca tivemos um projeto de tanta força e rapidez quanto o da Kely. Sobretudo pelas pessoas que se juntaram a ela”, completa.

O diretor conta que uma das explicações para aumento da procura na plataforma é o vácuo deixado pela oferta de bolsas e a dificuldade em obtê-las. Ele ressalta ainda que a causa e as recompensas obtidas (propostas nas inciativas publicadas) são fatores de motivação para apoiadores. “A pessoa que apoia, apoia pela causa. Nesse caso, é uma musicista negra, que saiu de uma comunidade carente e ganhou bolsa na melhor faculdade do mundo”, reforça.

Ajude a Kely: https://www.catarse.me/kely_vai_pra_berklee_9104?ref=project_link

 

(Crédito da foto: Crica Richter)