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Carlos Saldanha: “Criação é desenvolvimento”

por admin | 28 de novembro de 2018 | Cases

Confira a entrevista com um dos maiores nomes da animação internacional, o brasileiro Carlos Saldanha

Por trás dos carismáticos personagens touro Ferdinando, esquilo Scrat e arara Blu – só para citar alguns – está a genialidade de um dos maiores nomes da animação internacional, Carlos Saldanha. Há 25 anos no estúdio de animação Blue Sky, o diretor carioca acumula prêmios e sucessos de bilheteria. Nesta quarta (28), Saldanha recebe mais um reconhecimento: a Ordem do Mérito Cultural (OMC) do Ministério da Cultura, principal condecoração pública da área cultural.

Para Saldanha, a animação tem importante papel na economia criativa e no desenvolvimento econômico e social. “Criação é desenvolvimento. A economia criativa é uma das mais importantes fontes de desenvolvimento econômico em vários países”, diz. “Tenho me empenhado muito em tentar criar esta indústria no Brasil. Para isso temos que continuar a correr atrás de investimentos e ideias boas para contar”, avalia. Confira a entrevista:

Como a animação entrou em sua vida? Você lembra as animações que via quando era criança? De quais gostava mais?
Descobri a animação quando vim para Nova York, em 1991, para fazer um curso na School of Visual Arts. Até então, o meu conhecimento de animação era apenas através dos desenhos animados que assistia na televisão. Sempre gostei muito de animação, principalmente os desenhos animados do Tom e Jerry. Até hoje me divirto com eles.

Como você entrou para a Blue Sky?
Eu entrei para a Blue Sky logo que me formei no mestrado de animação da School of Visual Arts, em 1993. Um dos meus professores era o Chris Wedge, que também era um dos fundadores da Blue Sky. A companhia estava começando e tinha grandes ambições de montar um time de animadores para fazer filmes de animação. Eu aceitei o convite e fui o primeiro animador contratado do estúdio. Já estou na Blue Sky há 25 anos.

O que te dá mais prazer ao trabalhar com animação?
Poder criar e contar histórias. O convívio criativo diário com a equipe de artistas da Blue Sky é uma grande fonte de inspiração.

Quais são as maiores influências e inspirações para o seu trabalho?
Busco inspiração em tudo que vejo. Do meu dia a dia com a família e amigos, viagens, livros que leio, até uma simples caminhada na rua são fontes ricas de ideias. Estou sempre com as “antenas ligadas” em busca de uma nova inspiração.

O mercado internacional tem visto com bons olhos a animação brasileira?
O Brasil tem um potencial imenso com grandes talentos. Alguns projetos, como “O Menino e o Mundo”, do Alê Abreu, conseguiram uma projeção muito boa no circuito de festivais internacionais, inclusive uma indicação ao Oscar. Mas, para sermos mais competitivos e atraentes, temos que viabilizar uma melhor profissionalização e organização da animação brasileira para criar uma indústria que possa competir com o mercado externo.

Quais são as maiores dificuldades que um profissional da sua área enfrenta no mercado da animação? Que conselhos daria para quem quer trabalhar nessa área?
O mercado de animação está crescendo cada vez mais, oferecendo muitas oportunidades, mas é extremamente competitivo. A maior dificuldade é justamente encontrar uma forma de mostrar o diferencial de seu talento e conseguir um lugar neste mercado. O conselho que sempre passo para um profissional de animação é de estar sempre criando e nunca parar de aprender. Tem que correr atrás de seu objetivo. Não é fácil, mas é possível.

“Rio” é uma homenagem à sua cidade natal. Como surgiu a ideia de fazer “Rio” e “Rio 2”? Você esperava o sucesso que foi? Quais foram os maiores desafios que você enfrentou durante a produção do filme?
A ideia de fazer o “Rio” começou quando eu estava fazendo “Era do Gelo 2”. Sempre quis achar uma forma de mostrar o Brasil e a minha cidade natal da forma que um estrangeiro pudesse entender e admirar, e o mesmo para um brasileiro. A natureza sempre foi muito presente na minha vida e sempre adorei pássaros. Quis buscar uma forma de juntar estes elementos com a minha brasilidade e criar uma historia de animação.
A criação da história é sempre o meu maior desafio. As ideias sempre mudam e a gente trabalha no roteiro do início ao fim do projeto. No caso do “Rio”, a ideia inicial era com um pinguim “gringo” que chegava no Rio e descobria um mundo de cores e música nunca antes explorado. Infelizmente, tiveram tantos filmes com pinguins que acabei adaptando para uma ararinha-azul, que acabou sendo mais interessante e importante. Hoje, o filme serve de inspiração para proteção de aves raras brasileiras.

Você sente falta do Rio de Janeiro?
Sim, mas felizmente sempre que posso eu vou para o Brasil e curto muito a minha cidade, mesmo com todos seus desafios. Sou muito carioca!

Você acumula no currículo diversos sucessos como “Era do Gelo”, “Touro Ferdinando”… Em sua opinião, o que é fundamental para que uma animação tenha sucesso?
Uma boa historia com personagens marcantes. Sid, Scrat, Blu e Ferdinando estarão sempre no imaginário de todos que viram os meus filmes e eles são os grandes representantes do sucesso das minhas animações.

Quais são os seus próximos planos e projetos?
Estou com vários projetos no “forno”, mas ainda não posso revela-los.

Você receberá, nesta quarta (28), a Ordem do Mérito Cultural, a principal condecoração pública da área da Cultura. Qual o sentimento?
Me senti muito honrado com essa condecoração. Estou extremamente feliz e emocionado de poder ir à Brasília e compartilhar este momento com minha família e amigos. É um momento único na minha vida profissional e pessoal.

Neste ano, a Ordem do Mérito Cultural tem como tema a economia criativa. Qual é, em sua opinião, a importância da economia criativa para o desenvolvimento econômico de um País? Como a animação entra nisso?
Criação é desenvolvimento. A economia criativa é uma das mais importantes fontes de desenvolvimento econômico em vários países. Aqui nos EUA é uma indústria que movimenta bilhões e no Brasil tem o mesmo potencial, principalmente na animação. Tenho me empenhado muito em tentar criar esta indústria no Brasil. É um sonho que não está muito longe de se realizar, mas para isso temos que continuar a correr atrás de investimentos e ideias boas para contar.