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Com livro independente, poeta do sertão vence maior prêmio de literatura do Brasil

por admin | 22 de novembro de 2018 | Cases

Obra À Cidade, do cearense Mailson Viana, foi escolhida livro do ano na edição 2018 do Prêmio Jabuti

O escritor cearense Mailson Furtado Viana quase não compareceu à cerimônia de entrega do Prêmio Jabuti, maior premiação da literatura no Brasil, tão pequena era sua expectativa de ganhar. Mas o livro de sua autoria “À Cidade”, feito de forma independente, não apenas venceu na categoria “melhor poesia”, como também na do “livro do ano”.

A premiação do livro, que traz elementos geográficos, históricos, folclóricos e do cotidiano do povo da região Norte do Ceará, foi bastante comemorada pelo autor. “É a primeira vez que um livro independente, sem editora, ganhou como o melhor livro do ano. Isso traz uma simbologia forte no sentido de abrir portas”, explica. “O prêmio também abriu essa esperança, de poder viver de arte aqui no Sertão”, completa.

Em entrevista ao portal CulturaGeraFuturo, Mailson fala sobre gosto pela literatura, inspirações e importância da economia criativa para o desenvolvimento econômico e social do País.

Quando começou o seu gosto pela literatura?
Desenvolvi gosto pela leitura na adolescência. Tinha uma turma de amigos e gostávamos muito da parte artística, de música, de literatura e de teatro. Queria escrever algo parecido com bandas e cantores que ouvia. Mas como não sabia tocar instrumentos, esses escritos me levaram para a poesia e o verso. A partir daí, fui buscando outras coisas, comecei a ler mais poesia, literatura, comecei a fazer teatro e a escrever peças.

O que te inspirou a escrever “À Cidade”?
Tem algo marcante, que é o livro “Romance da Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna, que li em 2015. Ele fala do sertão da Paraíba e de Pernambuco e tive a oportunidade de conhecer a região pela minha companhia de teatro “Criando Arte”. Cheguei lá e tive a sensação de conhecer a região simplesmente por ter lido livro e voltei com vontade de escrever para passar a mesma sensação, da cidade em que vivo, Varjota (localizada no noroeste do estado).

Como foi o processo de escrita?
Logo após chegar de lá (Paraíba e Pernambuco), escrevi um poema, como escrevi os demais. São geralmente pequenos, com no máximo uma página. Escrevi um trecho pequenininho, mas o poema começou a me pedir mais coisas. Foram 20 dias intensos de escrita, o poema estava me pedindo para sair, foi desgastante psicologicamente. Depois desse período, mandei para amigos escritores para ouvir opiniões e, depois de um ano, foi publicado. É o meu quarto livro, que trata de elementos geográficos, históricos e folclóricos da região norte do Ceará. Traz a formação histórica e social e o cotidiano do povo. O poema pode representar qualquer vida de quem mora por lá.

Como foi receber o Prêmio Jabuti ?
Não estava esperando nem ser finalista, quase não fui a São Paulo (onde ocorreu a cerimônia de entrega do Prêmio). Ganhei na categoria poesia e, na hora do anúncio do livro do ano, eu ainda estava comemorando o primeiro. Estava anestesiado, foi muito legal.

O que esse prêmio representa para você?
É um reconhecimento do meu trabalho. Tem uma questão positiva do prêmio deste ano porque é a primeira vez que um livro independente, sem editora, ganha como o melhor livro do ano. Isso traz uma simbologia forte no sentido de abrir portas para que o mercado veja algo além, porque hoje a maioria da literatura é feita de forma independente e o grande mercado nega isso. (Ajuda também) o próprio leitor a abrir os olhos para esses livros independentes e para a gente aceitar coisa nova.

Além de dentista, produtor e escritor, você é fundador da Companhia de teatro “Criando Arte”. Pode nos falar um pouco sobre isso?
A minha profissão é dentista e é ela que me sustenta. Trabalho numa cidadezinha aqui perto. A Companhia surgiu em 2006. Dirijo, sou diretor, escritor e ator, é um grupo e circulamos aqui na região norte, às vezes vamos para outros locais do Ceará e do Nordeste. Estamos com circulação de dois espetáculos: um infantil e outro que traz o cotidiano da região. Traz essa questão de acreditar na juventude no sertão, que podemos viver de arte aqui, traz essa discussão. Acho que o prêmio também abriu essa esperança, de poder viver de arte aqui no sertão. Não sei se vai se concretizar (risos). (Para mim) É como se o prêmio fosse de todo mundo aqui.

Quais são os seus planos futuros?
Será lançado dia 29 deste mês o meu quinto livro, Passeio pelas ruas de mim (e de outros), também produzido de forma independente. Às vezes mandamos para editoras, mas elas nem respondem ou muitas vezes vem uma resposta geral. Eu sempre acreditei no meu trabalho, não tenho problema com isso. O mais difícil (de ser independente) é a questão da distribuição.

Em sua opinião, qual é a importância da economia criativa para desenvolvimento do País?
A economia criativa é fundamental, o trabalho artístico é fundamental para desenvolvimento econômico e social. Quando promovemos um evento artístico, influencia toda a vida social, aumentando a economia na hotelaria, gastronomia e movimentando a cidade. A arte nesse sentido é fundamental. A cada trabalho, firmamos também a identidade local e nacional. É fundamental pensar a arte no sentido criativo de gerar economia.