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Espedito Seleiro: sete décadas lidando com couro no sertão do Ceará

por admin | 3 de Abril de 2018 | Cases

Seleiro levou adiante a tradição familiar de trabalhar com o couro. Seu pai, artesão, fez sandálias para Lampião

O Circuito #CulturaGeraFuturo, que busca capacitar os gestores e produtores culturais a usarem os mecanismos de fomento do governo federal, chega, nesta sexta-feira (6), em Fortaleza (CE). O Ceará é um celeiro de talentos de vários ramos da economia criativa.

Exemplo disso é o trabalho desenvolvido por Espedito Seleiro, em Nova Olinda, no Cariri. Seleiro levou adiante a tradição familiar de fabricar selas, itens de indumentária do tropeiro e artigos de couro. Seu pai, artesão, ganhou fama no Cariri ao fazer as sandálias retangulares de Lampião.

Seleiro relembra nesta entrevista exclusiva as memórias de seu pai e essa relação com o rei do cangaço, fala de sua infância e sobre a arte de trabalhar com couro. Ao longo dos anos, firmou parcerias com lojas prestigiadas, como a Farm, chamou a atenção dos designers Humberto e Fernando Campana, participou do São Paulo Fashion Week e conduziu oficinas para levar seu conhecimento adiante.

Como foi sua infância? Como aprendeu a trabalhar com couro?
Sou de tradição de seleiro, que trabalha com sela para vaqueiro, para cavalo, para cigana, para tropeiro. Quando nasci, meu pai já era seleiro. Via seu trabalho e pegava as sobras para fazer uma sela pequena. Achei muito legal, gostei do trabalho. Comecei com oito anos e hoje estou com 78. Tomei conta da oficina e coloquei meus irmãos para trabalhar comigo.

O que esse trabalho representa para você?
Penso o seguinte: além do pessoal precisar do trabalho para sobreviver, é fundamental que mantenhamos nossa cultura. Aquilo que você sabe e não passa para alguém, você morre e leva, aquilo se perde. Pretendo trabalhar aqui enquanto eu puder e estiver vivendo com saúde.

Seu pai calçou Lampião. Ele gostava de contar essa história? Que memórias tem disso?
Eu era pequeno e lembro do meu pai contando essa história para a vaqueirama. Era um grupo de vinte pessoas conversando como seria o encontro na caatinga no dia seguinte para pegar o gado brabo. Ele contou a história, disse que estava fazendo uma sela à noite. Por volta das 21h, chegou um cara desconhecido da região e perguntou ao meu pai se ele fazia alpargatas. Meu pai respondeu que era bom para fazer selas e não sapatos, mas que se arriscaria a fazer. O moço fez a encomenda e disse que em uma hora traria o modelo para o meu pai fazer. Era um modelo de sola quadrada. Ele tirou da capanga. Quando veio buscar, 29 dias depois, perguntou se meu pai sabia para quem era e disse que era para Lampião. Meu pai nem cobrou.
Tenho esses modelos do meu pai, mas não faço quadrado porque é ruim de andar, só se pedirem mesmo.

Porque a sandália tinha formato retangular?
Na hora da encomenda, ninguém sabia. Depois, descobrimos que era para ninguém saber se Lampião estava indo ou voltando.

O que você faz hoje?
Faço alpargatas artesanais, gibão de vaqueiro, chapéu, sapato para vaqueiro, modelo completo de couro de vaqueiro, cigano e tropeiro. É uma loja do sertão, mas não vendemos só aqui, não. Vendemos para todo o Brasil.
Também promovo oficinas, mantenho um grupo de pessoas. Ensino e pelejo com eles para criarem e viverem sua vida. O pessoal aqui vem à vontade: tem dia que tem dez pessoas, tem dia que tem cinco. Ninguém aqui é obrigado a nada.

Como se dá o processo de produção?
Hoje, encomendamos o couro nas cores que precisamos. Mas já teve época em que eu pegava do próprio animal.

Você fez parcerias com lojas de grande porte como a Farm, atraiu atenção dos designers Humberto e Fernando Campana, participou do São Paulo Fashion Week e já teve peças exibidas em novelas da TV Globo. O que isso representa para você?
Pra mim, essas parcerias representam tudo porque a gente faz o modelo hoje e, amanhã, criamos outro para não acabar de uma vez. Minha vida é criar. Quem cria tem! Tem o que vender e o que mostrar.