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Favela e poder público se unem para debater cultura e potencial da indústria criativa no País

por admin | 17 de junho de 2018 | Notícias

 Encontro em Madureira, na Zona Norte carioca, contou com artistas como Serjão Loroza e Lellêzinha

O som dos tambores e a dança do Bloco Afro Cultural Òrúnmilá marcaram o início das apresentações do evento cultural que uniu o Ministério da Cultura e a Central Única das Favelas (CUFA). Batizado de #EconomiaCriativaGeraFuturo, o encontro propiciou um grande debate sobre empreendedorismo, economia criativa e políticas públicas com artistas, comunicadores, ativistas sociais e moradores de diversas favelas do Rio de Janeiro. Juntos, poder público e favela uniram forças e refletiram sobre o valor simbólico da produção cultural, novas formas de acesso ao mercado trabalho e oportunidades de negócios

Em uma roda de conversa composta pelo ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, pelo diretor-presidente da Ancine, Christian de Castro, o cantor Dudu Nobre, a jornalista Flávia Oliveira, a fundadora da Feira Preta, Adriana Barbosa, a atriz, cantora e fundadora do Dream Team do Passinho, Lellêzinha, o cantor Serjão Loroza, o presidente da Cufa Global, Preto Zezé e os líderes da Cufa, Nega Gizza e Celso Athayde, os debatedores trocaram experiências e levaram ao público, que se aglomerou sob o Viaduto Negrão de Lima, em Madureira, informações sobre empreendimentos e linhas de financiamentos governamentais nas mais diversas áreas da cultura.

Uma das principais referências da Cufa, a rapper Nega Gizza, lembrou o papel de transformação social da cultura. “É pela cultura que gente como a gente, nascida e criada nas favelas do Brasil, consegue ter vez e voz. É o universo cultural que nos permite quebrar um ciclo de anonimato e alcançar o nosso protagonismo”, disse na abertura do evento.

A importância da economia criativa como terreno gerador de oportunidades de inserção profissional, de acesso ao mercado de trabalho de geração de riqueza para o País e para as pessoas foi enfatizada pela mediadora do debate, Flávia Oliveira. “O emprego, como nós conhecíamos, não existe mais nem na quantidade e nem no nível de remuneração que desejamos e merecemos. Nesse sentido, a capacitação e a formalização são essenciais para que, entre os milhares de profissionais autônomos, surjam novos empresários”.

Ativos culturais e capacitação

Entusiasta do potencial da indústria criativa, Sá Leitão apresentou os números que mostram a cultura como um dos principais ativos econômicos do País. “54% do fluxo de dados nas redes de telecomunicações no Brasil são para acesso para a conteúdos audiovisuais variados. Mais da metade do faturamento do setor de telecomunicações tem a ver com o que a gente faz no seio da economia criativa e da cultura”, exemplificou.

Para o ministro, reforçar a importância dessa indústria vai além de uma questão individual para cada um dos artistas, dos produtores e dos gestores culturais. “É muito maior do que uma visão setorial voltada apenas ao fortalecimento da área da cultura. Isso tem a ver com o projeto de País. O País que queremos construir, mais justo, com mais oportunidade, com emprego, com geração de renda, com senso de pertencimento. As atividades culturais e criativas têm tudo a ver com isso”, ressaltou.

Na avaliação de Sá Leitão, a não realização do potencial do setor está intimamente ligado ao fato de as pessoas, de um modo geral, não conseguirem enxergar o valor simbólico e econômico da cultura. “Me angustia ver o quanto nós desperdiçamos esse ativo que temos no Brasil. Sou otimista, como todo brasileiro, consciente da realidade, mas esperançoso. Estou convencido de que onde vemos crise, precisamos ver oportunidade, uma plataforma de impulsionamento. Independentemente de as atividades criativas não serem socialmente valorizadas como devem, elas seguem crescendo a uma velocidade impressionante”, disse.

De acordo com o ministro, entre 2012 e 2016 as atividades criativas cresceram 9,1%, ao ano. “Vale lembrar que nesse período vivemos um momento de profunda recessão. Mais impressionante do que o crescimento pregresso é o potencial de desenvolvimento futuro”, declarou. O ministro destacou para o público todos os investimentos feitos pelo Ministério da Cultura nos últimos meses, os editais lançados e as medidas adotadas para simplificar o acesso das pessoas aos programas e linhas de financiamento da Pasta.

O fascínio pela potência da criatividade levou o engenheiro, Christian de Castro, hoje diretor-presidente da Agência Nacional do Cinema (Ancine), a se dedicar à produção cinematográfica. À frente da Ancine desde o início do ano, ele destacou o potencial da indústria audiovisual dentro da economia criativa e a necessidade de capacitação para tornar o setor mais inclusivo.

O diretor da Ancine falou sobre as linhas de investimento aprovadas este ano para formação e capacitação. “A ideia é trazer a tecnologia para dentro desse jogo. Com novas mídias e o digital, os diferentes criadores poderão elaborar novos modelos negócio ou novas formas de distribuir e entregar o conteúdo da sua atividade cultural. Nossa intenção é aproximar ainda mais esse universo do escopo de trabalho da Ancine. Apesar de ter cinema no nome, a agência hoje procura englobar toda a cadeia produtiva do audiovisual para que o setor possa incluir um número ainda maior de pessoas”, enfatizou.

Empreendedorismo negro

O desemprego levou a empresária Adriana Barbosa a se lançar, com uma amiga, nos mercados alternativos de rua. O trabalho incessante de Adriana permitiu que um antigo brechó se tornasse uma feira de rua e, anos depois, uma feira de pavilhão. Criadora da Feira Preta, maior evento de cultura e empreendedorismo negro da América Latina, a empresária construiu um modelo de economia criativa que trouxe também impacto social. “Nossa preocupação era colocar o negro no centro da produção, sendo ele dono da sua própria criação, permitindo que a circulação monetária ficasse na mão dele”.

Para ela, a inclinação para os negócios faz parte da cultura e da história do povo negro no nosso País, sobretudo, das mulheres negras. “Estamos fazendo essa economia criativa há pelo menos 130 anos. Desde as mulheres que vendiam na Bahia, com seus tabuleiros na cabeça, sem frequentar universidade ou compreender estratégias de marketing. Hoje, em pleno século 21, temos diversas influenciadoras digitais que fazem vídeos no YouTube e mudam todo o mercado de cosméticos. Tudo isso mostra que a terminologia economia criativa, criada no Reino Unido, já é parte de nós há muito tempo”, declarou.

Oriundos do meio artístico, Serjão Loroza e Dudu Nobre, revelaram suas trajetórias não apenas como artistas, mas como empreendedores do meio cultural. Para o cantor e ator nascido no Morro São José, sobreviver da arte foi um de seus maiores e mais bem-sucedidos empreendimentos. “Entendi desde muito cedo que primeiro colocamos a aeronave no ar e depois aprendemos a pilotar. A cachaça Doloroza, meu novo empreendimento, surgiu depois de observar que, nos últimos anos, 80% dos shows que eu fiz foram financiados pelas bebidas que eram vendidas ao redor do evento. Percebi que poderia fazer o mesmo não apenas para a minha arte, mas para os projetos parceiros ou que me interessem culturalmente”, disse.

Dudu Nobre, que desde os 10 anos é músico, acredita que um dos grandes desafios na área musical é a constante adaptação à realidade do mercado. “Com a difusão dos meios digitais, até mesmo as tradicionais emissoras de televisão estão sofrendo um baque com a entrada de canais de vídeo sob demanda. Minha dificuldade agora é levar essa nova realidade para o meu público, por exemplo, que não tem costume de acessar YouTube, Spotify. Cabe a mim apresentar todas essas inovações para aqueles que me acompanham há anos”, ponderou.

Mais jovem das empresárias e debatedoras do time, Lellêzinha revelou que a produtora criada por ela (Toca Tudo Produções) nasceu do sonho de levar a cultura da favela, do funk para o mundo. “No início da minha carreira tinha o sonho de disseminar o passinho em todos os lugares. Hoje, o Dream Team do passinho virou uma marca de música, de moda, de grupo de funk. Nossa empresa já trabalha com outros artistas e outros projetos. Mas o mais importante é ver que nossa meta foi cumprida”.

Ativismo social e criativo

Preto Zezé, presidente da Cufa Global, disse acreditar que a Central Única das Favelas representa um espaço de puro protagonismo e empreendedorismo. “Aqui transformamos um lugar de depressão em um local de criatividade. Esse debate é muito importante porque estamos reunindo pessoas pretas para falar não de tragédia, de morte, de exclusão, mas de economia. A juventude negra não se resume a discriminação e hoje estamos comprovando isso”, disse.

A vontade de unir empresas a ações sociais levou o publicitário Caio Coimbra a criar uma agência de causas. “Quando a gente fala de economia criativa, estamos falando sobre valorizar as coisas que estão presentes no nosso dia a dia. Minha missão é fazer com que as empresas possam comprar causas. Maquiar produtos para vender ideias nunca me atraiu”, enfatizou.

Já o fundador da Cufa, Celso Athayde, destacou todo o caminho percorrido por ele desde a infância pobre em Madureira até a criação da ONG e da Favela Holding (conjunto de empresas que tem como objetivo central o desenvolvimento de favelas e de seus moradores), e ressaltou a necessidade de combater as desigualdades. “Ao reunir moradores de favelas e a população negra na nossa Holding, não estamos apenas ganhando dinheiro, estamos democratizando o acesso dessas pessoas ao mercado. Uma de nossas empresas, a Favela Voando, tem mais de 200 agências de viagem. E neste debate vemos tudo o que eu sonhei lá atrás se materializando cada vez mais. Ou o País pega toda a riqueza que a favela gera e divide com a periferia ou vamos ser obrigados a conviver com a tragédia que a elite vem gerando por conta da concentração de renda”, concluiu.

Balcão de dúvidas

Para que os moradores das favelas, artistas e agentes culturais pudessem conhecer um pouco sobre as linhas de fomento disponibilizadas para a cultura, o MinC levou técnicos de algumas secretarias para tirar as dúvidas do público sobre editais, questões burocráticas, entre outros temas. Após o sucesso da iniciativa, o plantão de dúvidas deverá ser transformado em uma ação permanente. A ideia é que a Cufa ceda uma sala para que, uma vez por semana, técnicos do Ministério da Cultura se revezem para esclarecer moradores, produtores e artistas locais sobre os programas e linhas de crédito do MinC.

Encontro propiciou um grande debate sobre empreendedorismo, economia criativa e políticas públicas com artistas, ativistas sociais e moradores de diversas favelas. (Crédito Clara Angeleas – MinC)