Além de lançar discos de renomados artistas brasileiros, endereço paulistano conta com acervo de 110 mil LPs e 35 mil CDs
A trajetória da Baratos Afins, gravadora e loja de discos, confunde-se com a própria história do rock de São Paulo. Foi ela quem lançou bandas cultuadas como Fellini e Akira S e as Garotas que Erraram, e reeditou clássicos de Mutantes e Tom Zé. E é nessa loja, localizada na mítica Galeria do Rock, na capital paulista, que estão mais de 110 mil títulos de vinil e 35 mil CDs. Entre eles, raridades escolhidas a dedo pelo seu fundador, Luiz Calanca. Nesta quinta (24/5), na contramão do fechamento de muitas lojas de álbuns de música, a resistente Baratos Afins completa 40 anos.
O sucesso se dá por diversos fatores: a loja é eclética, antenada com as novidades e conta com um acervo incomparável. “Procuramos ter a nata do que se consome. Eu busco os lançamentos do mundo. Minha loja tem disco tão raro, que é mais raro ainda achar alguém que goste dele”, brinca Calanca. “E tem, claro, os clientes fiéis, que são nossa energia aqui”, completa.
Outro aspecto importante é que a Baratos Afins se tornou um selo. Desde que fundou o espaço, Calanca sabia que, para atrair a clientela, teria de fazer tiragens exclusivas. Foi atrás de artistas e depois os músicos vieram atrás dele. Ao longo dessas quatro décadas, Calanca produziu 104 títulos em vinil e 82 CDs. Na próxima semana, ele garante que sai mais um.
A ideia do selo surgiu quando Arnaldo Baptista, lendário cantor, baixista e pianista do grupo Os Mutantes, combinou com Calanca de lançar seu segundo álbum solo de forma independente. A partir daí, a gravadora lançou os principais álbuns dos melhores artistas de rock underground de São Paulo: Fellini, Akira S e as Garotas que Erraram, Voluntários da Pátria, Gueto, Smack, 3 Hombres e Mercenárias, só para citar alguns. A gravadora também relançou os álbuns esgotados de Tom Zé e Itamar Assumpção, e resgatou a obra dos Mutantes quando o conjunto andava em baixa, em 1984.
Evolução
Calanca lembra que veio do interior de São Paulo e a paixão pela música o fez largar seu trabalho numa farmácia. Quando virou pai, decidiu abrir a loja. “Senti o peso da responsabilidade, mas não tinha nada. Tinha um jaleco e um sapato furado e tive de vender meus discos. Aí me bateu o estalo de que poderia ter o meu próprio negócio. Foi no lugar certo e na hora certa”, conta.
Quando abriu a loja, a Galeria do Rock estava abandonada. Escolheu o local porque aquele era o único que ele tinha condições financeiras para bancar. No começo, colocou à venda os próprios LPs. Seu negócio foi crescendo e ficou conhecido. Outros empresários vieram para a Galeria e o espaço ganhou fama nacional. Hoje, ela concentra mais lojas de camisetas, artigos de skate e estúdios de tatuagem do que locais especializados em comércio de discos.
Cenário nebuloso
O fundador da Baratos e Afins acredita que sempre haverá um público para comprar um álbum, mas reclama do crescimento do individualismo em detrimento do coletivo, além da falta de veículos de mídia especializados em música. “Hoje, estamos raspando o fundo do tacho. Muita gente perdeu a coletividade, as pessoas estão cada vez mais individualistas, somos um sobrevivente de outra época”, avalia.
E acrescenta: “as pessoas estão perdidas na poeira cósmica da internet, sem foco, com preguiça de procurar. Cada um está no seu mundinho, à deriva, com fone atolado no ouvido. Ninguém discute mais música”, lamenta.
Mas, apesar de todas as dificuldades, se depender de Calanca a loja terá muitas outras décadas de vida. “Enquanto estiver com saúde, vou continuar esse trabalho. É aqui que gosto de ficar, peguei uma relação grande da loja com o público que a frequenta, fiz muitos amigos.”