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Rashid: “O rap me fez ter gosto pela escrita”

por admin | 4 de Maio de 2018 | Cases

Confira entrevista com o MC Rashid, que estreia na carreira de escritor com o livro Ideias que Rimam mais que Palavras

Rashid é uma das vozes mais fortes do hip hop nacional e mais um exemplo de como a cultura gera futuro. O rap trouxe a ele não apenas fama, mas inclusão, vontade de aprender e uma nova forma de ver o mundo. Em janeiro, lançou o álbum Crise. Depois, publicou seu primeiro livro, Ideias que Rimam mais que Palavras – Vol.1, em que faz crônicas sobre suas músicas e relembra momentos marcantes dos dez anos de carreira.

Em entrevista ao culturagerafuturo.com, o rapper paulista fala sobre trabalho, trajetória profissional e responde por que acredita que a cultura é fundamental para o desenvolvimento social e econômico do País.

Como o rap entrou na sua vida?
A minha proximidade com o rap veio por causa do grafite, que é um dos elementos da cultura hip hop. Sempre fui aficionado com desenhos e, quando comecei a sair na rua, nos anos 1990, passei a ter um contato maior com rap. Não sabia o que era, mas gostava daquilo porque tinha uma identificação. Os Racionais, por exemplo, eram muito tocados, falavam como a gente falava, se pareciam com a gente… Eram como a gente queria ser um dia.

Que benefícios o rap trouxe para você?
Meu sonho era ser grafiteiro mas, por volta dos 12 anos, peguei mais gosto pela música e, com 13, saí de São Paulo e fui para Minas Gerais. Foi aí que me apeguei muito ao rap. É esse lance de se sentir meio deslocado, era um local muito diferente. O rap me mantinha ligado ao meu habitat. E a música era uma válvula de escape para meus pensamentos. Minas Gerais é uma terra de que gosto muito e que me ajudou a ter cabeça para me concentrar.

Você diria que o rap mudou sua vida?
O rap me deu uma mudança enorme no sentido educacional. Me lembro que os artistas de que gostava diziam que a gente precisava se informar mais, precisava saber de coisas como a história de Martin Luther King. Sempre tinha essa coisa de ir atrás do conhecimento. O rap me fez ter gosto pela escrita, pela literatura e por matérias jornalísticas. O rap também me incluiu porque me aproximou de pessoas com situações parecidas com a minha e mudou minha visão de mundo.

Você está celebrando dez anos de carreira. Como vê a sua evolução profissional?
Minha mudança foi absurda. Quando comecei a tentar fazer música, não imaginava que ficaria desse tamanho. Ainda tenho muito a conquistar, mas o Rashid de 2007 não sabia que poderia chegar nesse lugar em que cheguei. Uma coisa é sonhar e outra coisa é planejar e chegar. Era muito passional. Comecei fazendo shows de graça. Depois, passaram a me pagar e aí vieram as viagens pelo Brasil e para fora do País. Talvez as pessoas achem que foi rápido, mas dez anos não são dez dias. A gente plantou muita coisa. Ao longo desse tempo, vejo uma mudança também da visão das pessoas em relação ao rap. Tinham uma visão limitada, totalmente preconceituosa. Hoje, ainda existe, mas eu e muitos artistas da minha geração ajudamos a mudar e a moldar um novo olhar para o rap, que fez com que certas pessoas começassem a vê-lo de forma mais profissional.

O que te inspira?
Basicamente tudo e qualquer coisa. Minha música é muito inspirada na minha vivência. Toda e qualquer experiência acaba servindo para um trecho de alguma música, trago vivências do cotidiano. Algumas falam da questão política e racial, com meu ponto de vista. Outras falam sobre relacionamentos e amizades.

Em janeiro, você lançou o álbum Crise. Por que esse nome?
No momento atual, tem a ver com a política e com a economia, que afetam a vida dos brasileiros. Mas o lance do disco é o quanto essa crise que ocorre do lado de fora nos atinge como indivíduos e provoca uma crise individual. As músicas do álbum se contrariam. Tem uma que fala muito em acreditar em si e outra que fala sobre insegurança. Uma que fala sobre a riqueza de estar com alguém e outra que fala sobre término do relacionamento… São pequenas crises.

Você também lançou o livro Ideias que Rimam mais que Palavras – Vol. 1. Por que decidiu enveredar pela literatura?
A literatura sempre foi uma parte grande do meu trabalho, sempre foi algo que apreciei muito. Esse livro fala sobre as histórias por trás das músicas. Você não sabe que situação de vida levou Rashid a escrever aquela música e o livro decodifica isso.

Como vê o Rashid artista e o Rashid empreendedor? Acredita que os artistas devem se dedicar mais à gestão da carreira?
Eu acho que, cada vez mais, o artista precisa ter esse lado empreendedor, mas nem todo artista tem esse tino. A nova era exige que ele seja artista, influenciador, empreendedor. Tenho produtora, empresa, editora e tenho que equilibrar tudo isso. É difícil.

Conte como foi comercializar seus produtos no início da carreira.
Quando lançamos os primeiros CDs, o inimigo era a pirataria. Pensávamos em como poderíamos bater de frente com os piratas. A forma que encontramos foi vender ao mesmo preço deles. Por isso, os primeiros CDs eram tão baratos e fáceis de comprar. Foi tudo inspirado na informalidade.

Para você, a cultura é fundamental para o desenvolvimento do País?
Claro, é fundamental para o desenvolvimento econômico e social. Tem várias pequenas coisas que as pessoas não enxergam. O rap me deu profissão, me incluiu. Hoje, temos pessoas que vieram da periferia e trabalham com a gente nas lojas, por exemplo. A cultura ajuda a mim, as pessoas que trabalham comigo, a minha família e as famílias dos que trabalham comigo. São pessoas que vivem de cultura, que tiram o ganha pão da cultura. Fora o trabalho social que a cultura faz, de tirar as pessoas do crime, das drogas e colocar em um trilho maravilhoso, que é trabalhar da arte. Essa visão de que a arte é algo secundário, de que ser artista não é emprego… Isso é algo muito triste e infeliz. Coisa de quem não enxerga a riqueza cultural, nem a financeira.

Rashid considera a cultura fundamental para o desenvoilvimento econômico e social do País. (Crédito: Tiago Rocha / Divulgação)